Midwayer - redux: O texto mais melancólico de 2025
É segunda-feira à noite e eu estou deitada no chão da sala, os pés para o alto, apoiados no sofá, observando silenciosamente o pisca-pisca colorido da árvore de Natal mudar de cor enquanto um incenso de lavanda queima no aparador. Ao fundo, os sons das crianças brincando no parquinho se misturam à música clássica intensa que coloquei para tocar.
Talvez isso se configure como uma imagem pacífica, mas por dentro passei o dia todo me corroendo, me revirando. Aos 27 anos, questiono-me onde pequei no meu planejamento de vida. Por que para os outros tudo parece ser tão mais fácil de ser alcançado? Será que escolhi coisas que estão além da minha capacidade? Que tão sonhadora foi esta pessoa que sempre se julgava tão racional?
Mais um ano escorreu pelos meus dedos e me vejo, de certa forma, parada numa realidade letárgica e gelatinosa — que por vezes se estica, embora nunca se expanda, voltando sempre para o mesmo lugar, com as mesmas dimensões, o mesmo volume.
Onde estou errando?
Sou cega demais para ver o que há de bom através da neblina?
Meus textos frequentemente se enchem de perguntas das quais as respostas não sei. Uma vez, num outro desabafo, escrevi que numa mente perturbada há somente conjecturas. Isso faz 5 anos. Não mudei de ideia.
Eu sempre tive uma visão bem clara e estruturada do meu futuro — amigos, carreira, viagens esporádicas, pequenas e médias realizações que dariam sentido aos percalços passados. Entretanto, ao crescer, descobri que nem o tão sonhado livro que um dia quis publicar tinha a capacidade de escrever.
A sensação que tenho é de ser mediana em tudo. Estou fadada a nunca me ver como protagonista, a não ter a capacidade de fazer grandes coisas, ou mesmo pequenas coisas, até. Eternamente tentando fugir do óbvio, hoje me pego perdida em minhas próprias idealizações, cujo teor ilusório me escapava no início.
Sempre penso ter cedido a essa realidade passiva, a essa existência nos subterrâneos da vida. Até acordar em dias que me sinto mais reflexiva, mais sensível ao mundo. Eu queria dizer que aceitei, entretanto ainda estou em negação. Também escrevi em outro texto que a esperança não era a última a morrer e sim a última a restar. Será que ainda não me resignei pois a minha custa a ir embora?
La vie vaut toujours la peine d’être vécue*… nos sapatos de quem?
*A vida vale sempre a pena ser vivida
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