Vivendo no receio de ser vocalmente bipolar
No universo das brincadeiras autodepreciativas, sou a primeira a dizer que sou louca e completamente instável. É claro, quem não me conhece inicialmente pensa que se trata apenas de uma brincadeira, não de um inicial de alívio cômico para eu conseguir introduzir na conversa o fato de que sou bipolar e que, contrariamente ao que as pessoas pensam ser bipolar, o diagnóstico é algo sério e que causa terrível sofrimento em quem o possui.
Infelizmente, mesmo que já consiga falar sobre isso com naturalidade, ainda não consigo me abrir totalmente. O sofrimento mental, por mais que hoje em dia seja mais discutido, ainda é pouco apreciado nas rodas de conversa. Acho que muito disso tem a ver com tabu e vergonha por parte dos pacientes e com a rejeição por parte da sociedade.
Recentemente, conversando com uma amiga sobre um vídeo no qual uma mulher relata seus episódios de mania, admiti que nunca conseguiria abrir-me por completo sobre as coisas que já fiz enquanto estava eufórica. Já quis escrever e me expressar muitas vezes, entretanto acho que as pessoas não entenderiam. O que se faz sob hipomania ou mania é, com muita frequência, algo que foge da moral costumeira — e a primeira resposta das pessoas nunca é uma tentativa de empatia para com uma mente fora de si.
Paralelamente, indago-me sempre o quão perigoso é a falta de conhecimento dos outros ao meu redor. Por exemplo, morando sozinha, não há quem veja minhas oscilações de humor, não há um terceiro para observar sintomas e reconhecer que algo não está normal. Na ausência da minha fala, no zumbindo do meu silêncio proposital, o julgamento e controle das minhas ações dependem apenas de mim.
A saída parece clara — falar sobre o transtorno bipolar —, mas o medo me alcança mais rapidamente, ainda mais por saber que há pessoas ao meu redor que não me levam a sério e que minimizam — muitas vezes nem acreditam — que é um sofrimento real. O contraponto é pungente: de onde tirar forças par falar de algo tão delicado e assustador diante de tanto desencorajamento?
A verdade é que ser destemido o suficiente para falar da experiência com transtorno bipolar é uma demonstração de força e coragem que poucos apreciam. É algo incômodo e fora do ordinário, e o desconforto gerado causa negação — ou seja, melhor não falar, uma vez que algo não dito é, por conseguinte, inexistente.
Sempre me expressei sobre minha relação com a ansiedade e a depressão e, mesmo que em muitas situações ambos estejam ligados às questões da bipolaridade, é a primeira vez que falo sobre ela num texto público, mesmo que de forma superficial (novamente, ainda não me sinto pronta para falar de uma boa parcela das minhas questões sem que isso assuste as pessoas próximas a mim — coisa que já aconteceu num texto anterior quando mencionei minha primeira experiência suicida).
Acho que continuarei tentando lidar com os terrores de ser vocalmente bipolar enquanto, concomitantemente, lido com as problemáticas do meu diagnóstico que ainda são borrões mesmo para mim, mesmo depois de um certo tempo convivendo com ele. Vejo nessa primeira tentativa uma carta aberta de apoio aos corajosos e corajosas que, mais fortes que eu, botam a boca na botija e gritam: “mesmo assim, ainda somos humanos.”
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