“Não haverá Ana Flavinhas?”: um breve relato da laqueadura aos 26 anos
“Não haverá Ana Flavinhas?”, foi a resposta retórica do meu amigo quando eu — tardiamente — o contei que havia feito a laqueadura. “Não haverá”, respondi. E não, não foi uma resposta que tive de dar com frequência desde que comecei o processo de preparação para a cirurgia.
Posso dizer que foi o que mais me surpreendeu: a falta de choque, a falta de surpresa, a falta de repúdio das pessoas. Óbvio que escutei comentários aqui e ali — a grande maioria, para minha surpresa, vindos das enfermeiras do centro cirúrgico. Entretanto, sinceramente, achava que a gente ao meu redor seria mais reacionária.
Devo isso ao mundo patriarcal e machista em que vivemos. E devo isso a minha — agora clara para mim — visão duvidosa da opinião das mulheres que me cercam. Foram elas, no entanto, que me acolheram e apoiaram minha decisão de, pela primeira vez, ser realmente dona de mim.
Não querer ser mãe — ou não querer gestar um filho — num mundo que ainda nos obriga a pensar que todas as mulheres foram feitas para maternidade tradicional é um dos grandes, talvez o maior, movimentos de protesto que podemos fazer. Não odeio crianças, não tenho nada contra maternidade em si e serei a tia mais brincalhona e carinhosa se um dia alguma ou algum dos meus melhores amigos quiserem me agraciar com um sobrinho.
Mas eu não tenho em mim. E eu nunca tive.
Eu ainda me assusto com o que uma gravidez pode fazer a um corpo. Eu, que tenho uma doença genética que colocaria minha vida em risco, jamais pensei que valeria a pena fazer isso por um filho. Um suicídio calculado pelo bem de outra pessoa. Que poderia crescer sem mim.
Ou pior, que poderia crescer comigo sabendo que eu não o queria tanto assim.
Filhos não deveriam ser “erros” ou “acidentes”. Você não deveria ser obrigado a amar um filho porque, afinal de contas, agora não tem para onde correr.
Eu fui negligenciada, fisicamente e emocionalmente abandonada por um dos meus pais que, em teoria, queria ter uma família. Minha mãe (que talvez esteja lendo isso e, peço logo, que entenda que não a culpo nem a acuso de nada) me disse várias vezes que se pudesse, não teria me tido. Ou melhor, não teria me tido naquele momento, mas, bem, se fosse em outro momento, não seria eu, seria?
Eu não precisei, no entanto, falar disso ou mais do que isso para as pessoas ao meu redor. Não precisei me explicar de menos ou de mais, quando falei, falei porque quis, falei porque confiava naquelas pessoas, porque elas me mostraram que não importavam os meus motivos, eu estava fazendo aquilo por mim e elas confiavam no meu julgamento sobre meu próprio bem-estar.
A maioria dessas pessoas, se não quase todas elas, eram mulheres. E elas foram a que menos questionaram meu poder de decisão. E eu acho, agora, que sei o motivo: todas sabem que ser mulher não é pisar numa cama feita de pétalas de rosa. Todas já viram (ou viveram) a maternidade no cru, na realidade que não gostam de nos contar para “não nos assustar”, e, por isso, entendem que vai para além do nenê que ri. E sabem, acima de tudo, que nem todas queremos isso para sempre.
É mais sábio e maduro, afinal de contas, reconhecer quando não somos capazes de fazer alguma coisa. Quando algo não nos cai, quando algo não nos enche os olhos. Ou, simplesmente admitir que não queremos aquela responsabilidade. Que não queremos (o que seria pelo menos para mim) um peso a ser carregado.
Não há perigo de arrependimentos aqui. Eu aceito minhas escolhas e as banco de peito erguido. Nunca fui de voltar atrás. Muitos me questionaram, e se eu mudar de ideia? Sempre respondo que gestar não é a única forma de maternidade existente. Mas não penso nisso, não agora, também não acho que pensarei tão cedo.
Escrevo, pois, queria externar certos pensamentos, mas, também, agradecer todo apoio que tive. Eu faria isso sozinha? Sim. Entretanto, saber que tantos e tantas estenderam o ombro compreensivo fez com que eu me sentisse extremamente amada e confiada. Acima de tudo, mãe, você foi essencial. Nada vai jamais suplantar meu amor por você – obrigada por tudo.
(Cole aqui o meme da mulher atirando um bebê para longe.)
Comentários
Postar um comentário