Conversando com Clarice, aprendendo com a melancolia

Ando lendo Clarice nos últimos dias – um livro de colunas que ela publicava semanalmente num jornal entre os anos de 1967 e 1973. Sendo bem sincera, nunca consegui gostar dos romances que ela publicou – A Hora da Estrela foi um trauma para a adolescente de 15 anos que eu era (por razões que hoje eu entendo melhor). Na tentativa e falha, tentei ler outros livros famosos, mas nunca avancei. Algo nas suas divagações me deixava confusa.

No entanto, li Laços de Família e me apaixonei pelos contos. Acho que por serem histórias mais breves, Clarice se torna mais clara e objetiva na mensagem que quer passar. Apesar disso, há anos não pegava um livro dela, até achar essa antiga edição de A Descoberta do Mundo num sebo de feira literária. Achei que viriam mais contos, entretanto os textos dessa coletânea mais são comentários da vida cotidiana do que qualquer outra coisa. Alguns curtos, outros longos (alguns muito curtos, uma linha e coisa parecida).

Não vou dar minha opinião detalhada sobre o que estou achando da personalidade de Clarice – acho que ofenderia alguns de seus fãs –, contudo devo admitir que admiro sua capacidade de criar um texto a partir de qualquer tema existente (mesmo que muitas vezes não faça sentido do meu ponto de vista). A verdade é que eu queria conseguir ser assim. Comecei escrevendo romances (bem, fanfics, mas não estamos aqui para julgar), e sempre desenhei esboços de longas histórias, mirabolantes até, mas cujo final nunca tiveram. Na universidade, vi-me apaixonada pela escrita das crônicas, dos contos, dos artigos. Tentei partir daí, pensando que talvez, só talvez, pudesse ser uma cronista um dia.

Enganei-me.

Acho que o mais triste dos últimos seis ou sete anos é saber que a ansiedade, a depressão, a bipolaridade e todos os infelizes traumas que eu fui desenterrando nesse tempo me tiraram a capacidade de escrever enredos criativos, felizes e despretensiosos. Bom, era isso que eu pensava (de certa forma ainda penso, pessoas não mudam tão rápido assim) ao ler A Descoberta do Mundo. Independentemente das ressalvas que eu tenho sobre a personalidade de Clarice, vê-la escrever sobre a tristeza e a melancolia de forma repetitiva e ainda assim manter de pé seu ofício é um acalento para mim que frequentemente abre a o computador e encara uma página em branco, remoendo se vale a pena ou não falar de todos os pensamentos turbulentos que me ocorrem.

Fecho esse curto texto com uma citação que pensei ter sido escrita para mim: “Fora das vezes em que quase morri para sempre, quantas vezes num silêncio humano – que é o mais grave de todos do reino animal –, quantas vezes num silêncio humano minha alma agonizando esperava por uma morte que não vinha. E como escárnio, por ser o contrário do martírio em que minha alma sangrava, era quando o corpo mais florescia.” Pode ser, que no meio desse florescer, eu volte a ser quem eu era. Volte a encontrar repouso nas palavras.

Tentarei até ver a primeira flor.

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