Escritora? Eu?
Lembro-me da primeira vez que abri o Microsoft Word para escrever uma história. Era uma fantasia e se chamava “Mundo sem fim” – provavelmente tirei o título de algum filme que passava na época. Ela contava a vida de um menino, cujo nome não me lembro, e de sua irmã que abriam um baú mágico e descobriam um mundo encantado. Não fui muito longe na história e, pelo computador ser de minha mãe, ela terminou por excluir o arquivo.
Depois disso, comecei um blog. Chamei-o de “Turma da Ana” e lá escrevia coisas do meu dia a dia, muito mal, mas eu tinha apenas 12 anos de idade. Não tenho mais acesso à conta e ele provavelmente foi excluído pelo servidor, mas tenho boas memórias dos textos que eu fazia. Pareciam puros, inocentes, frutos de uma pessoa que não sabia muito da vida.
Aos meus quatorze anos, entrei no mundo das fanfics. Gosto de dizer que já escrevi dois livros e, por muito tempo, adorei revisitar aquele mundo específico, aqueles personagens que me pareciam tão reais. Por dois anos, meus textos eram lidos por várias pessoas, que imploravam por atualizações, novos capítulos, spoilers daquela realidade paralela. Eu fui completamente devotada às fanfics. Sentia-me como uma escritora de verdade, famosa e adorada, mesmo que o nicho de alcance fosse tão pequeno. Foi nessa época que pensei que talvez, só talvez, um dia pudesse ser verdadeiramente uma escritora.
Passei horas da minha adolescência a criar histórias – eu tinha um caderno próprio para isso, e escrevi inúmeras ideias de enredo e construí personagens que nunca foram realmente desenvolvidos. Durante as aulas da escola, escrevia páginas e mais páginas de narrativas, chegava a ficar com as mãos doendo e os dedos inchados. Talvez seja por isso que nunca fui boa em matemática – além de não prestar atenção no professor, estava focada no que eu realmente achei que fosse a vocação da minha vida.
Na universidade, escolhi o jornalismo. Não pela glória da TV, mas porque eu poderia escrever e contar histórias. Claro que foi uma frustração em vários pontos, porque o jornalismo que eu imaginava já não é mais o jornalismo de hoje em dia, mas ainda assim pude desenvolver muito do que eu queria dentro da escrita. Foram diversos projetos de extensão, trabalhos e entrevistas, muitas reportagens e um sonho de que seria jornalista literária.
Até que... bem, conforme o tempo foi passando, passei a escrever cada vez menos. Eu lia cada vez menos e escrevia bem menos ainda. Meus problemas com a ansiedade se tornaram insuportáveis, e o que um dia foi uma terapia, tornou-se um tormento, uma angústia, uma dificuldade que eu me via desesperada para superar, mas que nunca chegava o dia. Meus textos eram escassos, as ideias, pobres. Passei a temer não ter mais a habilidade que eu achei que tinha.
Hoje, posso dizer que continuo nesse limbo. Quando estou muito inspirada, consigo escrever uma ou duas páginas, e tento manter de forma quase apática esse blog pessoal, onde você provavelmente está lendo esse texto agora. Sempre me considerei uma pessoa de histórias densas, mas agora me vejo presa na esperança de conseguir ao menos escrever um conto, uma crônica, algo que chegue, pelo menos, a uma página. Não é fácil e meus textos viraram mais desabafos do que histórias criativas cheias de personagens potentes e plot twists. Se um dia fui fã de fantasia, hoje são as histórias cruelmente reais às quais me apego, numa tentativa fraca de representar minha vida através das palavras.
Se sou escritora? Não sei. Nunca fui realmente publicada para dizer-me como tal. Se um dia serei? Atualmente, não acredito mais nisso, no entanto, quem sabe o que o futuro guarda para mim? Acho que o que eu mais aprendi nos últimos tempos, através de muitas horas de terapia e muitas sessões nas quais falo da falta que escrever me faz, é que nada é certo e que tudo pode acontecer. A vida muda e surpresas acontecem. Talvez um dia assine dedicatórias em páginas cor de marfim e tire fotos com fãs. Até lá, eu sonho.
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