Uma carta de mim para mim, sobre 2022

 Abri o bloco de notas sem ter muita criatividade para escrever. Pensei que já estava na hora de escrever algo para publicar aqui, mas ando há muito sem criatividade para textos curtos (ou, mesmo, para textos longos). Ao meu lado, minha amiga está ressonando no sofá, depois de ambas assistirmos a mais um jogo da Copa do Mundo juntas.

Queria escrever algo que relembrasse a dezembro. Dezembro, que no espaço-tempo pode não significar muita coisa – afinal a contagem de tempo é subjetiva –, mas que foi ressignificado de muitas maneiras pela sociedade na qual vivemos hoje. Para muitos, é o fim de um ciclo, a comemoração – ou alívio – de que mais um ano se passou, para outros não é nada demais; é mais um mês com dias, nos quais você acorda, trabalha, volta para casa e dorme, a rotina interminável da vida adulta.

Eu, particularmente, gosto de pensar que dezembro é o fim de mais um ciclo. Não necessariamente um ciclo de vida, mas um ciclo temporal que faz parte de um ciclo maior no qual estou vivendo. Talvez seja muito cedo para falar do fim de ano (ainda é dia quatro de dezembro) entretanto – e estou sendo sincera –, não sei quando terei novamente a criatividade para escrever algo assim. Então, vamos lá.

Quando penso no que fiz esse ano, tento entender realmente a que ponto cheguei na vida e para onde quero ir. Não sei dizer se foi um ano feliz ou um ano ruim. Por um lado, conheci a Alemanha, a Áustria, a Hungria, a Suíça e viajei para Paris ao menos três vezes. Vi amigos que tanto amo, acompanhei minha banda favorita em três ocasiões diferentes e ainda passei algumas semanas visitando minha família e amigos no Brasil. Para quem vive fora do país – e vive com orçamento contado – consegui superar todas as expectativas de coisas que poderia conseguir fazer.

Talvez isso já fosse o suficiente para dizer que sim, o ano de 2022 foi espetacular. Porém, quando avalio o outro lado, já não sei tanto o que dizer. Foi também o ano que por vezes afundei nos períodos mais ansiosos e depressivos da minha vida. Foi o ano que, por tantas mudanças e variações de humor, fiquei sob suspeita de ter transtorno bipolar. Foi esse ano que, pela primeira vez na minha vida toda, olhei pelo parapeito da varanda e pensei que seria muito fácil simplesmente me jogar dali.

Quando me mudei para a França em 2021, eu achava que todos as resoluções dos problemas pelos quais vinha batalhando e sofrendo desde 2019 – até antes disso – se resolveriam como num passe de mágica. No entanto, a realidade em 2022 foi mais forte do que a euforia de finalmente – talvez – estar no caminho pelo qual eu sempre sonhei. Somente quem passa pela experiência de morar fora do país sabe o quanto isso puxa de energia e saúde mental. É eternamente viver fora do seu ambiente de conforto, é eternamente lidar com desafios tão simples que você termina por se perguntar, diariamente, se a decisão que você tomou foi a mais correta.

Se em 2021 eu diria que, sim, foi a mais a correta, em 2022 eu já começo a questionar de onde vinha tanta certeza. Muito do que eu passei esse ano reforçou a ideia de que mudar de continente foi a melhor decisão que já tomei, contudo, muito do que eu passei também reforçou as dúvidas, a saudade, a depressão e a ansiedade de não saber realmente para onde a minha vida está indo. É dezembro de 2022, e eu ainda não tenho as respostas certas. Talvez eu não as tenha até o final do mestrado, talvez elas não venham nem então. Espero todos os dias pelo momento de epifania, aquele momento do qual tudo será definido e eu terei paz de espírito finalmente.

Ter passado por um ano tão turbulento me lembrou que há resiliência dentro de mim. Posso sentir as coisas com intensidade infinita, mas, até então, estou sendo capaz de processá-las, nem que seja na forma de um choro silencioso antes de dormir. Ainda não consigo ir à varanda do meu apartamento, mas já não tenho mais a ideia de que pular da sacada resolveria alguma coisa. Espero que continue assim por mais tempo.

Mesmo assim, ainda me sinto grata pelo que consegui alcançar e por todos os pontos positivos desse ano. Pela imagem dos Alpes cobertos de neve fofa, pelos meus amigos que moram em países diferentes, mas que sempre compartilham amor quando nos encontramos, pela banda que eu tanto amo e que, eu sei – e não me chamem de idealista – reflete esse carinho tão intenso. Foram horas de fila, horas de viagem, e tudo valeu a pena. A ela, também sou grata.

Não faço a mínima ideia do que será de mim em 2023. Como eu disse, a passagem de ano é mais um ciclo temporal do que de vida. Mas, ele conta de alguma forma. Esse ano, quero poder fechar os olhos no dia 31 de dezembro e ter um pouquinho mais de esperança pelo que vem por aí. Não faço o tipo que vive nas nuvens, mas me vejo obrigada a me agarrar nessa ideia de felicidade futura.

Uma carta de mim para mim,

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