Do terminal 3 do Aeroporto Charles de Gaulle

O plano inicial era escrever um texto sobre cada cidade visitada. Acredite, eu queria ter escrito sobre Florença e como ela me conquistou com suas badaladas de sino vindas da Catedral. Com sua gente simpática, a comida barata e o transporte público fácil de usar. 


Mas então coisas aconteceram — várias delas. Para resumir, escrevo agora enquanto espero o ônibus para Lyon, na estação Aeroporto Charles de Gaulle, após ter passado por Toulouse, Bois-de-la-Pierre, Orléans, Vennecy, Blois e Paris. Nesse meio tempo, já ri de gargalhar, chorei até o rosto inchar por dois dias, caí do ônibus e quase torci o pé direito, danifiquei as rodinhas da minha mala de viagem de tanto carregá-la para cima e para baixo, conheci pessoas ótimas e características, andei mais de 50km dentro da capital da França em uma semana, perdi a sensibilidade das mãos por causa do frio (enquanto outros passeavam de minissaia na rua). Enfim, uma soma de diversas situações que me levam a dizer que eu já me considero um bocadinho de nada diferente de quem eu era quando pisei em solo europeu. 



(Rápidas impressões sobre esses lugares:

  • Toulouse: conhecida como cidade rosa, ela é realmente feita de tons avermelhados. E pareceu-me medieval. Fiquei surpresa de esbarrar com brasileiros lá, não é a cidade mais turística da França. 

  • Blois-de-la-Pierre: a tranquilidade em formato de vila campestre. De lá dá para ver as montanhas com neve e a Espanha. Há muitos fazendeiros, e um castelo — mas é privado. 

  • Orléans: a primeira impressão era de que tinha chegado à Amsterdã. Os prédios são altos, juntinhos, nem tão tortos como a da capital holandesa, no entanto. Depois descobri que é um padrão francês em cidades de grande/médio porte. A catedral lembra Notre Dame de Paris. 

  • Vennecy: senti-me nas locações de filmagem de Orgulho e Preconceito. Ainda me questiono o motivo de não haver postes de luz nas vilas campestres. 

  • Blois: é como um cenário de filme da renascença francesa. Aconchegante, pequena e organizada; seu famoso castelo foi casa de ninguém menos que Catarina de Médici, Rainha da França. 

  • Paris: definitivamente, merecia um texto só dela. É fácil ver a razão pela qual as pessoas se apaixonam tão fácil por ela. O que mais me encantou, dentre de tantas coisas, foi sua urbanização harmônica. O ambiente perfeito do sonho em que você se projeta com roupas de grife caras, botas de couro de saltos finíssimos e boina preta enquanto toma um chocolate quente na calçada de um bistrô qualquer de esquina.)


Eu sei que tudo isso soa maravilhoso, no entanto, encontro-me um pouco cansada. Não cansada do tipo "chega, quero voltar para casa" (desculpe, mamãe), mas fisicamente e mentalmente. Com a rotina intensa e fazendo coisas quase sem parar, os calos dos meus pés têm calos, minha coluna está oficialmente igual a de um idoso de 95 anos, meu cabelo ressecou por causa do clima frio e, mesmo gostando da solidão, passar dias sem conversar pessoalmente com quem quer que seja se torna frustrante às vezes. Muitas vezes, tenho vontade de compartilhar meus pensamentos e ideias — são tantos! —, porém falar com o celular é cansativo. E o fuso horário também não ajuda. 



É claro que tudo faz parte da experiência. Não reclamo. Não me enganei achando que seria um mar de flores o tempo todo; muito menos acreditei que a solidão seria minha eterna melhor amiga — afinal, sendo um ser humano, sou portanto um ser sociável. Contudo, ainda assim, é bom, ao menos uma vez, preocupar-me com algo que escolhi conscientemente. Focar numa coisa só. Redescobrir-me como pessoa e saber quão maleáveis são meus limites. Do bom e do ruim que já me aconteceu até aqui, tudo será lembrado como experiências e aprendizados que eu precisei para quebrar certos paradigmas. 


Estou ansiosa para a segunda parte da viagem — meu intercâmbio de francês — que começa hoje. Desejo-me sorte. E que não esteja tão frio na hora de pegar o ônibus. 





*Texto escrito na noite do dia 4 de dezembro. 

**Não estava frio quando peguei o ônibus. Estava congelando quando desci dele. 

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