Roma e as sirenes
É claro que língua foi um problema — ainda é, porque, enquanto escrevo isso, estou em Florença, em solo italiano, só mais ao norte (o berço da língua italiana como a conhecemos hoje, aliás). Cheguei na Itália sabendo um pouco mais do que 20 palavras e confiando na base única do latim para me ajudar, mas, mesmo assim, depois de um tempo comecei a sentir vergonha de só falar "Io no parlo italiano" a todos aqueles a quem me dirigia, ou que se dirigiam a mim. Não é impossível de se comunicar — a mímica ainda existe; e o inglês é a segunda aposta, quase automático quando se diz que não entende italiano. Eu fui mais longe e gastei um pouco do meu francês quando tinha a oportunidade, além de arriscar um espanhol fajuto e, muitas vezes, sem sentido. Há pessoas de todo o mundo, e as chances de esbarrar num estrangeiro enquanto se passeia no centro histórico são muito maiores do que num nativo.
Aliás, pergunto-me como deve ser viver numa cidade assim, que mais parece estrangeira, um lugar que pertence a todos e a ninguém ao mesmo tempo. Brinquei com meus amigos, dizendo que na cidade só havia asiáticos, indianos, brasileiros (e, claro, pombos). Mas é verdade — e, enquanto os chineses, japoneses, coreanos e demais representam o que há de mais rico e sofisticado dentre os visitantes, a população indiana (e africana) representa a realidade dos imigrantes que fogem da pobreza e dos conflitos para viver no "primeiro mundo", escravos do emprego informal e da pobreza. Eles estão em todos os lugares — em barracas de comércio na calçada, ajudantes em pontos turísticos, vendendo guarda-chuvas e carregadores portáteis nas esquinas dos locais de visitação.
O fenômeno da imigração se reflete, como um espelho sem ranhuras, na parte governamental de controle social e segurança pública. Há postos militares nos principais cantos da cidade. Soldados atentos, esperando algum sinal de que algo possa dar errado. Quando os vi pela primeira vez de armas nas mãos, eu me assustei. Não costumamos ver tal coisa na cidade em que eu moro. Com o tempo, no entanto, se torna natural. Roma é fácil de se adaptar, ou pelo menos foi para mim.
Você passa a ignorar o trânsito maluco e o fato de não entender a língua. O presunto parma (que eu comeria todos os dias, sem falta) se torna indispensável no café da manhã. E você para de se questionar o motivo de permitirem passar carros em vielas tão estreitas, ou como os carros conseguem estacionar em espaços tão reduzidos. Ou, até mesmo, a razão de dirigir numa cidade como aquela, porque claramente ela deve ser vista e explorada através de longos percursos a pé. Porque ela merece, porque a cada metro avançado você se sente voltando ao passado, um passado de edifícios de concreto de cores quentes com sacadas cheia de flores, como se vivessem num eterno outono.
Minha viagem mal começou e ainda há tanto para ver, mas já posso afirmar que sim, Roma é um lugar para ficar, para ser admirado do alto do Castelo de Sant'Angello com o vento batendo no rosto e os sons urbanos zumbindo no seu ouvido — goste você, ou não, das sirenes.
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