As experiências que carregamos e a impossível fuga de suas consequências
Por Ana Flávia Sanção
Eu escrevo o mesmo romance há quase cinco anos e, numa das minhas crises de existência sobre família e infância, acabei percebendo um padrão na vida dos seis personagens principais da história que eu nunca tinha sequer parado para pensar antes.
Dos seis, quatro tem problemas com a figura paterna. Nina e Danilo, que são irmãos, não tem contato com o pai, pois sua mãe fugiu dele quando os dois não passavam de bebês devido à violência constante; Giu convive com um pai distante e frio, que sofre de problemas psicológicos desde o trauma que passou com a primeira filha anos atrás; e Gabriela tinha um pai muito presente até ele morrer de câncer no pulmão. Os outros dois, Felipe e Augusto, possuem o pai relativamente presente, mas o personagem dele é quase irrelevante no enredo todo, aparecendo tão pouco na trama principal que é como se fosse inexistente.
Outra situação que se repete de forma universal na vida deles é que nenhum dos pais permanecem casados. Em duas famílias, a história já começa com eles separados. Em outras duas, ocorre um divórcio e uma morte.
Esses detalhes nunca me pareceram nada demais, e a história de vida dos meus personagens nasceu espontaneamente, sem muito o que pensar. Mas hoje, tentando evitar os pensamentos que sempre me ocorrem quando estou numa crise existencial, percebi o quanto a negligência do meu pai me afetou no inconsciente e como a constante busca da minha mãe pelo amor alterou minha visão de relacionamentos. Mesmo de forma imperceptível, eu passei a projetar os meus próprios traumas e inseguranças de quando criança naquilo que eu mais gosto de produzir, que são os meus textos.
Sempre gostei de pensar e garantir aos outros e a mim mesma que eu não, de forma alguma, me importava com toda a situação que passei quando era mais nova. Toda vez que eu repetia o mesmo repertório sobre o que havia acontecido — algumas vezes animada, outras séria e muito poucas com vontade de chorar —, sempre encarnava a postura da pessoa emocionalmente forte. E, apesar de achar que eu tenho o emocional mais estável e até mesmo mais frio que muitas outras pessoas, é bem provável que lá no fundo eu não tenha conseguido enganar a mim mesma.
Ao perceber que a figura do pai é extremamente mal representada em minhas próprias histórias, mesmos sabendo que a maioria das pessoas que eu convivo tem um relacionamento ao menos decente com o próprio pai, toda essa reflexão sobre o que trazemos das nossas experiências quando crianças voltou à tona. Uma vez em um bate-papo com duas colegas, elas me disseram que não acreditavam em “traumas de infância”, porque elas próprias, tendo passado o que passaram depois de a mãe fugir de casa, não tinham um comportamento considerado “anormal”.
Porém, acho muito incoerente, e até certo ponto ignorante, achar que traumas de infância são somente aquilo que nos leva a agir de forma rebelde, agressiva, delinquente e irresponsável. Trauma, na verdade, são experiências negativas e que podem ou não afetar suas ações futuras. Ele não necessariamente implica esse tipo de comportamento “fora do normal”.
Todos nós, e eu digo com propriedade que são todos, somos frutos das nossas experiências de vida, principalmente aquelas que ocorreram na infância, quando a personalidade ainda está se formando. O que somos e o que fazemos hoje é resultado daquilo que já fizemos antes. A projeção dos traumas pode vir de qualquer forma, da mais sutil até a mais excêntrica, variando em grau e tipo. Se, no meu caso, eu replico de forma inconsciente a negligência paternal e a falta de fé em casamentos no meu discurso e nas minhas produções (literárias ou jornalísticas) outras pessoas o podem fazê-lo de forma diferente.
A verdade é que somos o que somos e, falando por mim, se eu pudesse, tiraria toda essa bagagem negativa que me persegue até hoje, e que provavelmente me seguirá pelo resto da vida. Não sei como escrever sobre relacionamentos entre pais e filhos de forma positiva, pois nunca soube como era isso enquanto eu crescia. Também é provável que eu nunca escreva muitos romances com finais felizes, pois eu mesma não tenho muita fé em longos relacionamentos e me projeto no futuro vivendo sozinha, o tipo de solidão que acho confortável.
Talvez muitas pessoas pensem como eu, ou só achem que eu estou falando muita besteira. Mas há pouca gente no mundo que está 100% satisfeita com aquilo que é, com seus traços de personalidade tão intrínsecos quanto as histórias por trás deles. Não sei se é possível mudá-los, mas provavelmente não deve ser fácil também. Para ser sincera, acredito que certas coisas não possam mudar, e que as levaremos do jeito que são enquanto vivermos. E, na prospecção mais otimista, a melhor coisa a se fazer é aceitar que somos assim e ponto final.
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