Memórias Mecânicas
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Mais cedo eu estava no carro, voltando da casa de praia, e me
deparei com um dos mais belos pores do sol da estação. O local era um imenso
descampado, onde dava para ver perfeitamente aquele círculo de fogo laranja
vivo iluminando o céu de fim de tarde.
Saquei o celular instantaneamente — eu tinha de capturar o momento, é claro —, mas
estanquei na procura de uma boa posição para o braço. O carro tremia muito, tive medo das fotos saírem defeituosas. Demorei tempo demais e, quando finalmente
consegui uma boa posição, entramos numa região mais urbana — o sol se
escondeu. Fiquei chateada; eu queria muito mostrar o pôr do sol aos meus
amigos. Coloquei a culpa nos malditos prédios; eles haviam me feito perder
aquela paisagem magnífica.
Enfim,
conversa vai conversa vem no carro, lembrei-me subitamente de algo que meu padrasto dissera mais cedo na praia: “Vocês se preocupam mais em tirar foto do que curtir
a paisagem”. Naquela hora eu simplesmente ignorei o comentário. Repentinamente, agora, no entanto, aquilo começava a fazer sentido.
Sim,
nós estamos sempre mais preocupados com o ato de tirar fotos do que com o
presenciar do momento. Não foi culpa dos prédios eu ter perdido o pôr do sol,
foi culpa minha. Enquanto eu deveria estar apreciando aquele instante, estava
mais preocupada com a posição da câmera do meu celular.
E
isso não acontece só comigo — acontece com a maioria de nós. Quantas vezes não
presenciamos, numa reunião de amigos, por exemplo, a necessidade obsessiva pela
câmera quando se há tanta coisa para conversar? Quem nunca perdeu preciosos
minutos de um sarau, uma festa, ou até mesmo minutos de estudo para memorizar o
momento?
Nossa
sociedade vive a era da tecnologia; nada nunca foi tão dinâmico como nos dias
de hoje. E, com essa tendência à velocidade e ao imediatismo, tudo o que um dia
foi moderno será obsoleto. Inclusive as nossas fotos.
Não
estou dizendo de modo algum para pararem o uso dos celulares e das câmeras
fotográficas — eu mesma não conseguiria tal proeza. Entretanto, ao mesmo tempo
em que há uma preocupação compulsiva com o registro, há o descaso com o viver. Aquele tempo — minutos, horas,
seja o que for — não vai voltar. A partir do momento em que deixamos de
participar, nós não teremos aquilo como uma memória vivida, mas sim como uma
memória mecânica.
Acredite
em mim quando digo que memórias mecânicas são ruins. Estas não carregam consigo
o calor do momento, aquela piada subtendida ou a troca de olhares entre um
casal, que só quem estava realmente participando percebeu. Elas serão algo
meramente remanescente, que depois de um tempo perderá o interesse e será
apagado do seu cartão de memória.
Ainda
que não pareça, eu acho a fotografia uma arte sem igual. É um dom artístico
cedido àquelas pessoas muito especiais que conseguem ver o mundo de uma forma
única. Entretanto, assim como qualquer outra coisa, deve ser praticada com
moderação. Encontre os seus amigos, tire uma ou duas fotos e depois viva. Ao rever as fotografias todos os
bons momentos daquele dia virão à tona na sua memória, sem você ter precisado
fotografar cada segundo. E então suas fotografias não se tornarão obsoletas, mas sim
lindas recordações.

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