As desvantagens de ser invisível
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Eu não tenho carro. Na verdade, eu não tenho nem idade para dirigir ainda. Estou louca para que chegue setembro e eu possa finalmente tirar minha carteira. Enquanto isso não acontece, eu vivo como a maior parte da população desse país: ando de ônibus quando preciso.
Apesar da péssima condição do transporte coletivo do nosso país, ainda mais da minha cidade, existem algumas coisas que só andando de ônibus ou pelas ruas podemos ver. São cenas e detalhes que muitas vezes nos passam despercebidos em outras situações do dia-a-dia — é aquela senhora sofrida que anda com seus filhos pequenos, pois tem de trabalhar, mas não possui dinheiro para custear uma babá; são os olhos maliciosos de homens sem caráter que seguem mulheres pelas ruas; são os dedos entrelaçados de um casal fugindo da chuva.
Mesmo com tanta coisa para se ver, se observar, notamos que a maioria das pessoas está alheia a isso. Elas não andam nas ruas, correm; elas não param para dar bom-dia ao senhor da limpeza que está ali todos os dias, passam como se ele fosse invisível. É como se a única preocupação fosse chegar até o seu objetivo e nada mais ao seu entorno fosse importante.
Vivemos na era do imediatismo — tempo é dinheiro e, por isso, é precioso. Não temos mais o ócio necessário para observar o mundo; cada instante nosso é necessário para realizar uma tarefa, e nisso vamos nos consumindo cada vez mais num mundo egocêntrico e individual. Eu importo, o outro não.
Por trás da cegueira das pessoas, existem outras quase tão invisíveis quanto bactérias e ácaros. São os mendigos, as crianças de rua, as mulheres grávidas e as senhoras inválidas, que ficam sentadas nas calçadas, nas ruas, embaixo das pontes, esperando para serem notadas por alguém. São pessoas sofridas e com histórias de vida e de sobrevivência que dariam ótimos livros e lindos filmes.
Passamos por elas todos os dias, por mais que não as enxerguemos. Convivemos e vemos a situação de cada uma, porém ignoramos como se fossem nada. Quando não as ignoramos, somos juízes de seus caracteres: "Olha aquela vagabunda. Mora na rua e está grávida. Por que dá se sabe que não pode criar?", "Ele mora embaixo da ponte porque quer. Se não fosse preguiçoso estaria trabalhando", "Fica pedindo moedas na rua para poder cheirar cola, por isso que eu não dou dinheiro a esse tipo de gente".
Isso não acontece somente com moradores de rua, mas também com trabalhadores de margem, terciários, que mantêm as instituições de nossa sociedade organizadas para nós. Eles são as tias e os tios da limpeza, os encanadores, nossos porteiros, os donos da cantina da universidade, os balconistas do supermercado. Eles são tratados como parte das construções, das lojas, e muitas vezes o mínimo do respeito e da boa educação lhes são privados. Não damos bom dia, ou boa noite, ou perguntamos como eles estão. Essas pessoas são consideradas objetos que tem a função de nos servir, de limpar a sujeira que nós fazemos. Quando não as ignoramos, as tratamos mal — exigências descabidas, xingamentos desnecessários e tratamentos deploráveis. Podemos fazer o que queremos com elas, pois elas estão ali para servir, como se não tivessem sentimento ou coração tanto quanto nós.
Não vou me passar de humanitária politicamente correta, porque não o sou. Já passei e ainda passo por pessoas necessitadas e finjo que não as vejo; já entrei num banheiro com uma senhora limpando o chão e simplesmente ignorei sua existência; já caminhei sem parar para ajudar alguém que podia estar precisando de mim. Não estou aqui para ser totalitária e crucificar todos que já fizeram isso — sou vítima desse sistema imediatista como qualquer outro.
Mas isso não me faz feliz. Não fico contente quando passo por alguém que precisa de mim — ou de um sorriso, de um bom dia — e simplesmente ignoro. É como se parte do meu dever como ser humano, como igual, estivesse sendo negligenciado por pura futilidade. As pessoas não deveriam simplesmente achar isso normal — as partes mais básicas do que nos torna humanos, a consciência e a compaixão, são tratadas como inexistentes. As temos para com nossos iguais (refiro-me aos iguais socialmente dizendo), porém não para com aqueles que talvez até precisem mais do que os outros.
A naturalização dessa negligência é tão comum que nem sequer notamos quando a fazemos . Muitas vezes até temos uma consciência gentil, mas a situação se torna tão ordinária que não paramos para avaliar as nossas próprias ações. Zygmunt Bauman diz em seu livro O Mal-estar da Pós-Modernidade que:
Ingressamos num mundo em que uma terrível quantidade de aspectos são óbvios a ponto de já não serem conscientemente notados e não precisarem de nenhum esforço ativo, nem mesmo o de decifrá-los, para estarem invisivelmente, mas tangivelmente, presentes em tudo o que fazemos — dotando desse modo os nossos atos, e as coisas sobre as quais agimos, de uma solidez de "realidade".
O meu propósito com esse texto não é transformar todos que o leem em humanitários ou em agentes do Greenpeace ou da ONU. Meu objetivo é trazer uma reflexão sobre uma realidade que está por baixo da nossa realidade; chamar atenção para uma grande parte da população que vive e que está bem debaixo dos nossos narizes. É mostrar que não custa nada dar uma moeda de 25 centavos ao garotinho pedinte do ônibus, ou um bom dia ao senhor(a) que limpa a sala de aula todos os dias. É lembrar que todas aquelas pessoas tem histórias por trás da fachada que vemos diariamente, e que muitas vezes um simples sorriso ou um oi pode transformar seus dias.
Vamos ser humanos. Não podemos perder a nossa humanidade. Talvez o mundo não possa ser mudado com tanta facilidade, mas uma pequena ação gera uma maior e assim por diante. Uma cadeia de boas ações pode criar uma nova realidade, uma realidade melhor, e mesmo não podendo agir diretamente na vida das pessoas invisíveis, saberemos que, pelo menos, fizemos algo para melhorar um de seus dias. E assim continuaremos com os nossos, sendo um pouquinho mais humanos.

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