Resenha: livro Emma, da Jane Austen

Imagem apenas ilustrativa. A edição que eu li foi a 3º da Martin Claret, com tradução de Adriana Zardini. 
Ano passado eu criei uma meta para ler todos os livros da Jane Austen em, pelo menos, dois anos. A escola — agora a universidade — tomava muito do meu tempo, então achei que um período de dois anos seria suficiente para terminar os seis livros. O primeiro que eu li foi Orgulho e Preconceito e depois Razão e Sensibilidade. O terceiro, que venho resenhar agora, foi Emma. 
Emma conta a história de uma jovem, Emma Woodhouse, de 21 anos, rica e da alta sociedade de uma pequena cidade chamada Highbury, na Inglaterra. Ela vive com o pai, sr. Woodhouse, e desenvolveu um trabalho de "casamenteira" (o filme de 1994, na tradução para o Brasil, colocou esse subtítulo horroroso), após conseguir juntar sua tutora, srta. Taylor, com um amigo da família, sr. Weston. Depois desse feito, Emma tenta fazer com que sua recém-amiga, Harriet Smith, se case também. É aí que o enredo começa. 
A incrível capacidade de criar personagens únicos de Jane Austen nos traz ao livro com mais personalidades icônicas até agora. Emma é mimada, prepotente, convencida e gosta de ser o centro das atenções de todos. A típica garota rica da Inglaterra do século XVIII-XIX, cujas preocupações rodavam em torno dos seus contatos na sociedade e da vida dos outros. 
Não se enganem, porém, quando digo todos esses defeitos dela. Emma também tem uma incrível capacidade de reflexão diante de seus erros, apesar de demorar a admiti-los, e muda visivelmente durante o enredo. A negligência para com os mais pobres e "inferiores" perde lugar para uma compreensão mais sensível dessas pessoas e do que seria o mundo delas. Sua aceitação sobre si mesma a faz admitir os erros, mesmo que somente no final, necessários para o fechamento do livro. 
Além de Emma Woodhouse, temos outros personagens interessantíssimos. O primeiro que me intrigou foi Frank Churchill. Filho do sr. Weston, Frank Churchill visita Highbury a fim de passar mais tempo com o pai. Devo admitir que seu jeito sagaz conseguiu me enganar durante a trama, tanto que mudei diversas vezes minhas ideias sobre quem ele realmente era. Outra personagem seria Jane Fairfax. Ela é definitivamente é uma das minhas preferidas pelo simples fato de não ceder aos caprichos de srta. Woodhouse. Sempre recatada, nunca deu a Emma o gostinho de se sentir superior. Harriet também é bem característica; uma paródia do que seriam as pessoas deslumbradas demais com a alta sociedade daquela época. Fácil demais de se manipular, ela é uma massinha de modelar nas mãos de Emma. 
Outra coisa que me chama atenção, além dos personagens, é como Jane Austen possuía a capacidade de enxergar bem mais de sua sociedade do que muitos outros daquela época. A escrita satírica revela os defeitos de um povo marcado pela divisão das classes, do dinheiro e do orgulho. Um dos trechos mais brilhantes que ela escreve é sobre como o rendimento monetário de alguém (Jane Fairfax) poderia afetar seus modos sociais: 
Tudo parecia indicar que viveria ali pelo resto de seus dias, receberia uma boa educação conforme os rendimentos de sua família, e cresceria sem frequentar a boa sociedade e sem aperfeiçoar os dotes com os quais a natureza lhe presenteara, tais como ser uma pessoa agradável, compreensiva e de bom coração. 
Para quem lê de fora, vê algo prepotente e até mesmo ridículo. Qualidades como essas não poderiam se afetadas só por causa da falta de dinheiro ou de uma sociedade mais rica. No entanto, quem realmente parar para avaliar, observará o quanto de crítica há por trás desse parágrafo. Jane Austen, por frequentar um círculo razoável de pessoas mais 'nobres' durante a sua vida, sabia como a outra parte de sua sociedade era vista. 
Ademais, podemos ver também uma crítica ao estereótipo da mulher daquele século. As mulheres eram vistas como submissas e totalmente focadas num único objetivo: ser vista por um homem que a pudesse pedir em casamento. A vida e os objetivos eram totalmente focados para chamar atenção de um bom pretendente. Talentos como costura, canto, música (instrumentos musicais), pintura e dança eram ensinados durante a sua juventude, e uma mulher que não os possuísse era considerada inferior. Duas citações do livro me chamaram atenção, uma de Emma:
— Para ser franca — exclamou Emma — é quase impossível para um homem acreditar que uma mulher possa recusar uma proposta de casamento. Os homens sempre pensam que as mulheres estão dispostas a aceitar qualquer proposta, de quem quer que seja e a qualquer momento. 
e outra da sra. Elton, personagem secundária que entra durante o meio do enredo: 
 — Muito bem, senhor! Deixa-me vir incomodar minhas amigas e você me aparece aqui muito mais tarde do que prometeu! Mas você sabe a esposa que tem. Sabe que eu jamais arredaria o pé de onde me deixou antes que meu amo e senhor aparecesse. Estive sentada aqui, na última hora, oferecendo às minhas amigas exemplos de feliz obediência conjugal. 
O único defeito que encontrei na obra é a falta de pistas sobre os sentimentos mais profundos de Emma, que vem à tona muito rapidamente sem que tivessem sido sugeridos anteriormente, mesmo que de forma discreta e singela, o que acaba dando um tom meio bipolar à personagem principal. Fora isso, gostaria muito que Jane Austen tivesse trabalhado num livro à parte a história de Jane Fairfax e Frank Churchill, pois são os dois personagens secundários mais intrigantes da história, e que tem muito a contar.
Em suma, o livro é muito bom, apesar de não superar Orgulho e Preconceito. A história é longa, mas talvez tenha faltado mais acontecimentos que marcassem o enredo como aconteceram nos outros dois livros de Jane que eu li anteriormente. A melhor qualidade do livro é os diferentes tipos de pessoas tratados, algo que podemos usar como parâmetro para avaliar o mundo atual, cujas características tornam a leitura divertida e dinâmica. Recomendo a todos que gostam de romances clássicos de época.

***

Para complementar: em 1996 foi lançado um filme baseado no romance, que ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora: Comédia ou Musical. Quem interpreta Emma é Gwyneth Paltrow (a Pepper Potts de Homem de Ferro). O filme é muito bom e retrata bem os personagens descritos por Jane Austen, apesar de eu achar que eles foram um pouco exaltados demais em suas personalidades. Tem cerca de duas horas de duração e pode ser encontrado no Netflix. É um bom complemento para quem já leu o livro.




Comentários

  1. O desenvolvimento da narrativa é simples? É uma leitura fluida? (ps.: amei a resenha)

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    1. Obrigada!!!! É sim, é bem dinâmico. É enorme, mas bem fácil de ler. Mais simples que orgulho e preconceito, inclusive. Em OEP tem tantas senhoritas com o mesmo sobrenome que é difícil saber às vezes a quem está se referindo (mas é um uso gramatical proposital da autora)

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