Porque uma mulher de valor não se resume a ser "Bela, recatada e do lar"
Segunda-feira passada, dia 18/04/2016, uma matéria foi lançada pela Revista Veja. Era um perfil de Marcela Temer, esposa de Michel Temer, vice-presidente da república, que está sendo aguardado para assumir o cargo de Presidente da República caso o processo de impeachment da presidente Dilma seja aceito. No perfil, Juliana Linhares, a autora, mostra as principais qualidades da nossa talvez futura primeira-dama: "Bela, recatada e do lar".
O choque com o texto da reportagem foi instantâneo e viralizou por todo o país, gerando uma reação feminista em resposta às citações como estas:
A quase primeira-dama, 43 anos mais jovem que o marido, aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos e sonha em ter mais um filho com o vice.
Marcela é a vice-primeira dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também.
"Marcela sempre chamou atenção pela beleza, mas sempre foi recatada" (...) "Ela gosta de vestidos até os joelhos e cores claras".
Foram diversos memes, textos motivadores em redes socais e postagem de mulheres satirizando o termo "Bela, recata e do lar" utilizado como título do perfil feito por Juliana. Durante uns bons dois dias tudo o que se via no feeds de notícia das mais diversas redes sociais eram piadas, fotos e as indignações com a reportagem.
No entanto, a comoção pela matéria não atingiu todos da mesma maneira. Pessoas, tanto homens quanto mulheres, retrucaram as críticas com questões como "O que há de errado em ser do lar?" e "O feminismo deveria pregar liberdade às escolhas das mulheres, independente de quais sejam, o que não está acontecendo". A historiadora Mary Del Priore, em entrevista à BBC, afirmou que esse tipo de crítica não representa uma parte da realidade das mulheres brasileiras, que vivem nesse tipo de situação em regiões mais esquecidas e que não estão vinculadas aos movimentos feministas. Ainda completou dizendo: "Eu acho uma intolerância total esse tipo de crítica. O certo é respeitar. Se a senhora quer viver dessa forma e faz feliz a si própria e ao seu marido, melhor para ela".
Muito embora tenha havido uma real falta de respeito com quem adere ao estilo de vida dona de casa, o objetivo de toda a campanha contra a reportagem da Revista Veja era outro bem diferente. Ao frisar as principais qualidades de Marcela Temer, a autora da reportagem deixa claro que aquele é o exemplo certo de mulher que deve estar no poder, ou ao lado de quem o detêm. Juliana Linhares marca o estereótipo de mulher dona de casa como certo e ideal. Com uma situação política caótica em nosso país, boa parte representada por conservadores, a reportagem vem mostrar àqueles que são adeptos da ideia da mulher submissa como Michel Temer possui mais um ponto a seu favor para ser o presidente da república perfeito: casado com uma mulher 43 anos mais jovem, bonita, que não se intromete nos assuntos políticos e que cumpre seu dever como dona de casa e cuidadora dos filhos.
O modo como o perfil foi escrito e a imagem de Marcela abordada — muito provavelmente sem ser culpa da própria — teve um claro objetivo mal-intencionado e que pretendia atingir, de forma indireta ou direta, depende do leitor, os movimentos feministas e as próprias mulheres que não se consideram do lar, mas que tem igual valor as que se consideram. Num momento em que qualquer furo de reportagem mais polêmico estremesse o país, foi uma jogada inteligente e ao mesmo tempo perigosa feita pela autora do perfil. É o tipo de notícia que pretende lançar grupos sociais de ideologias diferentes um contra o outro, causando uma polarização sociopolítica ainda maior que aquela já existente.
Validando a importância das respostas feministas, a psicanalista e escritora Diana Corso, numa matéria para o site da Revista Donna, diz que uma reportagem como esta afirma a ideia de família tradicional e propriedade, além de minguar os direitos ganhos pelas mulheres de não serem reconhecidas mais como tal. As mulheres querem ser reconhecidas pelo valor que tem, mesmo que não sejam dona de casas e mães integrais. "A existência dessa mulher, que é, digamos, um bem privado de um homem público (assim pelo menos ela foi pintada para a opinião pública, talvez ela nem seja isso) nos coloca frente àquilo que temos lutado para não ter mais que ser", exprime Diana. Ou seja, o problema não é e nunca será ser uma dona de casa, mas sim a ideologia de que a única mulher de valor, aquela que é a certa para todos os homens, é a submissa, calada e quieta, que toma conta do lar e dos filhos e não se intromete nos assuntos do marido.
Além de estereotipar a imagem da mulher ideal, o perfil traz alguns outros detalhes que completam a concepção do que seria uma "família perfeita". Exaltando a riqueza e ostentação, temos a descrição de um jantar caríssimo num dos mais requintados restaurantes, idealizando o que seria a vida ideal de um casal.
Blindada nas paredes, no teto e no chão para ser à prova de som e garantir os segredos dos muitos políticos que costumam reunir-se no local, a sala tem capacidade para acomodar trinta pessoas, mas foi esvaziada para receber "Mar" e "Mi" (...) O casal desfrutou algumas horas de jantar romântico sob um céu estrelado, graças ao teto retrátil do ambiente.
Fora isso, outras nuances não podem deixar de serem percebidas quanto ao estereótipo de beleza, cuidadosamente citado, da mãe de Marcela: "Sacudida, loiríssima e de olhos azuis". Todos esses pequenos detalhes citados desembocam na frase de conclusão do perfil "Michel Temer é um homem de sorte".
Podemos ver, portanto, o quão tangível é a intenção e formação de ideologia por trás de um simples perfil da mulher de um político. São coisas como essa que nos trazem à realidade e nos fazem questionar se realmente vamos ou não acatar a esse tipo de imposição, e se todos os direitos conseguidos através de uma luta de décadas são passíveis de serem jogados fora de maneira tão fácil. O problema não é ser do lar, é só ter valor se for do lar. Nós somos mulheres e devemos ser respeitadas e consideradas de forma positiva e igual independente da profissão e do lugar que ocupamos na nossa sociedade. Nós não somos bonecas infláveis, nós queremos ser belas da nossa maneira.*
*Paráfrase de uma das frases de Diana Corso.
*Fontes: Veja, Revista Donna e BBC.


Comentários
Postar um comentário