Os clímaces tristes de um filme chamado vida
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| (Imagem: filme The Duff, de onde eu tirei inspiração para esse post) |
Eu sempre tive uma dificuldade enorme no quesito "terminar de assistir um filme". Não pelo filme ser ruim ou algo assim, mas sim por um pequeno problema: eu tenho dificuldades em continuar quando a parte ruim acontece.
Filmes não tão clichês à parte, todo longa tem aqueles vinte minutos, na maioria das vezes nos últimos quarenta minutos de enredo, que a história toda vai para o buraco e o mocinho ou a mocinha ficam na bad. Acontece por qualquer coisa: a menina feia da escola descobre que o cara legal só estava saindo com ela por causa de uma aposta; o garoto mais popular finalmente entrega seu coração a uma menina, mas ela dá um pé nele. E por aí vai. São aquelas cenas reflexivas que você já esperava desde o início do filme, mas que de algum modo te deixam triste ou entediado(a). No meu caso, essas cenas me deixam triste. Não aquele triste de chorar três gotas e continuar assistindo — é o triste que me faz querer desligar a TV e nunca mais ver aquele filme por, pelo menos, duas semanas.
Sim, eu sou uma pessoa sensível, entretanto não acho que este meu pequeno problema esteja ligado à minha incrível habilidade de chorar com comerciais de manteiga. Sempre que os clímaces (se é que se pode chamar a parte mais triste do filme disso) chegam eu começo a me sentir mal e algo me corrói por dentro. É quase como se eu fosse a personagem, porém não atuando. Geralmente, assim que o fora doloroso é dado na mocinha, eu pauso o filme e avalio minha capacidade de continuar vendo ou não.
Veja bem, eu amo filmes. Existem poucas coisas que me fascinam tanto quanto um filme bem feito. Se ele me arrancar lágrimas então, passa para o top cinco da minha lista de favoritos no mesmo instante. Há certa magia quando nos conectamos com o enredo e com os personagens, algo que só a vida real pode nos proporcionar.
Durante esses minutos, que eu luto internamente contra a vontade de largar o filme pela metade e ir fazer qualquer outra coisa, imagino-me no lugar na personagem. O que eu faria se fosse ela? Como lidaria? E se fosse real?
Quem está lendo provavelmente está pensando que eu não sei lidar com problemas reais, que eu sou aquela garota que se depara com uma pedra no caminho, senta e vai chorar as chances perdidas. Não. Eu não sou assim. Normalmente eu tento relativizar tudo ao máximo até o ponto em que eu não posso mais ignorar a situação. A partir daí eu meto a cara no que quer que seja e tento resolver. A praticidade talvez seja uma das minhas melhores qualidades, modéstia à parte. Então, já que o problema não é eu ter um problema com situações difíceis, por que será que cenas tristes me afetam tanto?
Admito ter uma facilidade em absorver a dor do outro e, na maioria das vezes, tento lutar contra aquilo como se eu fosse a própria pessoa. Isso é bastante frequente quando está relacionado às minhas melhores amigas; é quase como se o humor delas tivesse o interruptor que definisse o meu automaticamente. Pois bem, durante o filme eu me conecto com a personagem e tomo as dores dela. Mas tem mais.
Fora essa (estúpida?) vontade de sempre tomar as dores dos outros, eu sou uma pessoa muito idealista no que se refere à realidade social do mundo em que vivemos. Na minha cabeça as coisas ruins nunca deveriam acontecer. Eu sei que elas acontecem — mas não deveriam. Muita gente vai dizer que pensa o mesmo e que isso não é motivo, no entanto esse é exatamente o motivo.
Como eu disse anteriormente, eu protelo e relativizo uma situação até o instante em que vejo que a coisa está realmente crítica. Ao assistir um filme eu idealizo o tempo inteiro que a história continuará boa e tranquila como na primeira uma hora e meia, pois não existem motivos para que algo ruim aconteça. E é aí que eu erro. Existem claros motivos para que coisas ruins aconteçam, porque elas têm de acontecer. E, se por acaso, elas não aconteceram ainda, aquela história definitivamente não terminou. É um papo clichê, mas a vale a pena falar dele, pois é verdade. Na vida real, assim como nos filmes, há sempre aqueles clímaces que a situação fica fora de controle e o mundo entra em um colapso temporário. Cabe a nós lidar com a situação.
Negar a realidade dos fatos só nos faz absorver e consumir a negatividade. O período de luto deve ser substituído por uma vontade de continuar vivendo, uma vez que a vida tem disso e não há nada o que se possa fazer. E — rufem os tambores — vai acontecer de novo. Sim, é uma droga, mas vai. Você sofre, recompõe-se, dá dois passos e cai de cara na merda de novo.
A vantagem é que, se você tiver aprendido um pouquinho que seja com suas topadas, a probabilidade da recuperação ser mais rápida é bem alta. Aprender com os erros é algo essencial para lidarmos com o futuro, visto que é a experiência que nos dá sabedoria sobre a causa e o efeito (alô fãs de David Hume).
Daí podemos avaliar o tema como algo mais universal. Vejamos o planeta e o caos que hoje ele se encontra. São ataques terroristas, fascistas querendo tomar o poder, ditaduras, fome, miséria, morte, violência, preconceito, ganância. Coisas que já experimentamos as consequências anos, décadas, séculos atrás e ainda continuamos a fazer do mesmo jeito. Ou seja, não aprendemos nada com o passado. Tudo o que esse mundo já viveu foi em vão — as pessoas não absorveram, não tiraram nenhum ensinamento da história.
Esperava-se que pós Segunda Guerra as sociedades e a tecnologia evoluíssem para algo menos destrutivo, mais humano. Vimos pessoas morrerem, serem assassinadas e humilhadas nas mais diversas situações e continuamos ainda hoje fazendo as mesmas coisas. Na década de 60 vimos as populações do mundo todo pedindo por direitos iguais, a intolerância e o preconceito sendo estampados para todos verem. Hoje essas pessoas ainda os pedem, mais de meio século depois.
Por que não pode ser como nos filmes? Por que não podemos simplesmente ter aquele clímax triste e melancólico para alcançarmos um feliz para sempre?
Vou responder: as pessoas, como eu, são idealistas. Elas negam sempre que podem a difícil realidade da vida e ignoraram qualquer coisa que esteja acontecendo a um palmo de distância do seu nariz. Ao absorverem a ideia de que sempre após um momento de tensão as coisas irão melhorar, elas se preparam para o melhor, mas esquecem que no futuro acontecerão outras recaídas. Sendo assim, elas não conseguem manter a paz, pois a veem como algo infinito.
Vamos pensar, vamos parar de idealizar. Temos de continuar vivendo e trabalhando para manter aquilo que há de bom, senão todos serão iguais a mim: pessoas que pausam e colocam um filme de lado só porque a parte triste está passando.

Amei, Ana Flávia <3 vou acompanhar
ResponderExcluirniceeee
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